(*) Por Aline Autran de Morais
No atual mundo corporativo, que vive em um ambiente de velocidade extremamente acelerada e incertezas, o que realmente sustenta uma organização ao longo do tempo?
Recentemente, em dois “Café com CEO” da Amcham, foi possível ouvir Otelmo Drebes, CEO do Grupo Lebes, empresa de quase 70 anos e Natalie Ardrizzo, jovem CEO que comanda a tradicional Termolar. Embora representem gerações e estilos distintos, suas jornadas convergem para princípios que definem o DNA da liderança que não apenas sobrevive, mas prospera através das décadas.
A Força da Resiliência: Persistir é Preciso
Uma das lições trazidas por Otelmo Drebes é a da resiliência. Ele comentaque uma empresa chegar aos 70 anos é um feito monumental. “Para uma pessoa ter 70 anos, hoje em dia não é tão difícil”, pondera. “Agora, para a empresa ter 70 anos, pessoal, isso é muito difícil.” A Lebes, que começou como um modesto armazém de secos e molhados, atravessou todas as crises imagináveis da história brasileira: enchentes, pandemias, planos econômicos, trocas de governo e instabilidade política. A mensagem de Drebes é: “Se tu tiveres certeza que tu queres fazer, insiste naquilo”. Porém, não se trata de uma insistência cega, mas de uma convicção profunda que alimenta a perseverança por um, dois, cinco, ou, como no caso deles, setenta anos.
Essa mesma perseverança se manifesta na liderança de Natalie Ardrizzo. Apelidada por si mesma de “CEO das Crises”, ela assumiu o comando da Termolar em abril de 2021, no pico da pandemia de Covid-19, e desde então navegou por enchentes que devastaram o estado e um ataque hacker que paralisou a empresa por dez dias. Sua resposta a esses desafios revela uma filosofia de liderança que se desenvolve e se fortalece em momentos de crise, adversidade e alta pressão.
Durante as enchentes, ao ser aconselhada a deixar a cidade, sua resposta foi imediata e simbólica: “Capitão é o último que abandona o barco”. Essa postura não é apenas uma frase de efeito; é a materialização de uma resiliência que, segundo ela, foi em grande parte moldada pelos sete anos de prática de Jiu-Jitsu. A antifragilidade aprendida no tatame se traduziu em uma capacidade de estar presente e firme nos momentos mais críticos, demonstrando que a resiliência não é apenas sobre sobreviver, mas sobre continuar construindo em meio à tempestade.
Liderança pelo Exemplo: Autenticidade e Coerência
O que conecta líderes de gerações tão diferentes é a recusa em se esconder atrás de discursos vazios. A liderança que ambos praticam é autêntica. Otelmo Drebes estabelece o tom com humildade: “Eu não vou aqui ensinar. […] Eu vou mostrar o que que eu faço. Às vezes dá certo, às vezes dá errado”. Essa admissão de vulnerabilidade é uma grande lição. Ele reconhece que o erro é inerente à ação – “só dá errado se a gente faz” – e que o sucesso é o saldo positivo de uma longa jornada de tentativas. “Eu erro bastante, tá? […] Acertei até hoje um pouco mais do que errei”, confessa, despindo-se da aura de infalibilidade que muitos líderes insistem em projetar.
Natalie Ardrizzo compartilha da mesma filosofia, expressando-a através do princípio da coerência. “Eu nunca cobrei algo que eu não estivesse disposta a fazer”, afirma. Para ela, a liderança se conquista através do exemplo, da disposição de estar na linha de frente e fazer o que é necessário. Seja na gestão de uma crise ou na direção criativa de uma nova campanha de produtos, sua presença é sentida. Essa atitude cria um laço de confiança e respeito com a equipe, que vê em sua líder não uma figura de autoridade distante, mas alguém que compartilha dos mesmos desafios e compromissos. A liderança autêntica, como demonstram Drebes e Ardrizzo, demonstra e inspira, não pelo que diz, mas pelo que faz.
Cultura como Disciplina: O Método por Trás da Magia
Uma cultura empresarial forte é frequentemente citada como um diferencial competitivo, mas raramente se discute a metodologia por trás de sua construção. Natalie Ardrizzo é categórica ao afirmar que “cultura exige disciplina militar”. Ela desmistifica a ideia de que a cultura é algo que floresce espontaneamente. Na Termolar, a cultura é tratada como um pilar estratégico, sustentado por um modelo de gestão rigoroso que envolve indicadores, políticas claras e rituais consistentes. A Reunião de Disciplina Operacional (RDO), realizada religiosamente toda segunda-feira com as principais lideranças, é um exemplo dessa abordagem metódica. A cultura é reforçada em cada ação, desde a “Palavra da Presidência”, uma carta mensal da CEO, até os programas de desenvolvimento de lideranças (PDL), nos quais ela faz questão de participar ativamente.
No Grupo Lebes, a cultura se manifesta de forma mais orgânica, mas igualmente forte. Ela está enraizada na valorização do que se tem, em não permitir que o trabalho e as relações se tornem mera rotina. Está presente na forma como a empresa lida com seus mais de 500.000 clientes de crediário, priorizando a renegociação e o relacionamento de longo prazo. Otelmo Drebes enfatiza a complexidade de lidar com pessoas, uma arte que a Lebes aprimorou ao longo de décadas. Ambas as empresas, cada uma à sua maneira, nos ensinam que uma cultura forte não acontece por acaso. Ela é intencionalmente desenhada, nutrida e, acima de tudo, praticada com uma disciplina incansável.
Visão e Inovação: Honrando o Passado, Construindo o Futuro
Manter-se relevante por décadas exige um delicado equilíbrio entre honrar a tradição e abraçar a inovação. A Termolar, conhecida pela icônica garrafa térmica que habita a memória afetiva de gerações, enfrenta hoje o desafio de se conectar com um novo público. Sob a liderança de Natalie, a empresa tem lançado coleções disruptivas, explorando cores, design e personalização para criar uma nova experiência de consumo. “Se eu não me conectar com as novas gerações, como é que eu vou continuar crescendo?”, questiona. Com uma visão clara, ela guia a empresa para conquistar novos mercados, sem jamais abandonar a qualidade que a consagrou.
O Grupo Lebes é, em si, uma aula de inovação e adaptação. A jornada de uma pequena mercearia a um ecossistema de negócios diversificado, com faturamento em torno de R$ 1,8 bilhão, é a prova de uma capacidade contínua de reinvenção. A empresa expandiu do varejo para os serviços financeiros, da fabricação de confecções para a logística, sempre atenta às oportunidades e às necessidades do mercado. A visão de longo prazo, nesse caso, não é um plano estático, mas uma bússola que orienta a evolução constante. Inovar, como nos mostram esses dois líderes, é uma forma de honrar o passado: garantindo que ele tenha um futuro.
O Valor das Pessoas: O Centro de Tudo
No fim do dia, toda empresa é feita de pessoas, para pessoas. E é na valorização do capital humano que a liderança de Drebes e Ardrizzo encontra seu ponto central. Natalie Ardrizzo fala sobre a importância de focar onde ela, como líder, agrega mais valor, e isso passa por desenvolver sua equipe para que possa “voar sozinha”. Trouxe como exemplo seu gerente financeiro, hoje autônomo e de alta performance, ilustrando um modelo de liderança que multiplica talentos. Na Termolar, o cuidado com as pessoas se manifesta em ações como o programa “Empodera”, voltado para o desenvolvimento das mulheres da empresa, e no gesto simbólico de presentear os aniversariantes do mês com os produtos recém-lançados, tratando-os como os consumidores mais importantes que são.
Para Otelmo Drebes, o fator humano é a essência do negócio. “A gente lida com pessoas, a gente lida com gente”, repete ele, reconhecendo a complexidade e a beleza das relações humanas. A empresa criou uma ferramenta de treinamento de gestão chamada “Júri Simulado”. Nesse exercício, dois times de gerentes são formados, um para defender e outro para acusar um determinado tema. O detalhe é que eles são forçados a argumentar por uma posição com a qual podem não concordar pessoalmente. Esta não é uma simples atividade de debate, mas um exercício profundo de desenvolvimento humano. Ao forçar um líder a construir um argumento sólido para uma visão oposta à sua, a empresa cultiva habilidades essenciais: a capacidade de entender diferentes pontos de vista, a empatia para se colocar no lugar do outro e o pensamento crítico para analisar um problema por todos os ângulos.
Outro exemplo da Lebes é que Otelmo Drebs liga pessoalmente para perto de 500 gerentes e funcionários seniores no dia de seus aniversários. Também é feito o café com o CEO, encontros onde os colaboradores têm a chance de conversar abertamente e se sentirem valorizados. Já a CEO da Termolar tomou uma decisão crucial quando o sistema da empresa estava parado por um ataque hacker no dia do pagamento, ordenou que dessem um jeito de pagar. A equipe do financeiro conseguiu um empréstimo de emergência a custos altíssimos para garantir que nenhum funcionário ficasse sem seu salário.
O DNA da Liderança que Perdura
O que, então, une um líder forjado em décadas de experiência e uma jovem CEO que navega as crises do século XXI? O que suas histórias nos ensinam sobre o DNA da liderança que resiste ao tempo? A resposta parece estar em um conjunto de pilares fundamentais: a resiliência como um compromisso inabalável; a liderança pelo exemplo como alicerce da confiança; a cultura como uma disciplina praticada diariamente; a visão de longo prazo como motor da inovação; e a valorização genuína das pessoas como o verdadeiro centro do negócio.
Em um cenário de incertezas, as lições de Otelmo Drebes e Natalie Ardrizzo são um guia. Elas nos lembram que, independentemente da geração ou do setor, a liderança autêntica, corajosa e profundamente humana não é apenas um ideal a ser buscado, mas a força motriz que constrói legados. A pergunta que fica para cada um de nós é: que tipo de líder escolhemos ser para construir as empresas que perdurarão no futuro?
